Quando o silêncio grita mais alto

Peço licença ao leitor para falar sobre um tema do qual não sou especialista. Não sou psicólogo nem psiquiatra. Ainda assim, me sinto no dever de escrever. Por uma experiência pessoal e por tudo aquilo que vivi ao longo da minha trajetória profissional.
Quando se fala em segurança pública, muita gente pensa apenas em crime, viatura e ocorrência. Mas segurança pública vai além disso. Também é cuidar de pessoas. É evitar perdas. É proteger famílias. É agir antes que seja tarde.
O suicídio é reconhecido oficialmente como um problema de saúde pública. Ele não acontece de uma hora para outra. Raramente é algo isolado. Na maioria das vezes, está ligado a sofrimento emocional, como depressão, ansiedade, solidão e falta de perspectiva.
Como policial, me senti no direito e no dever de falar sobre esse tema por alguns motivos. Porque esse tipo de ocorrência faz parte da realidade da segurança pública. Porque já estive frente a frente com situações que marcaram profundamente. E porque, por trás de cada caso, existe alguém. Existe uma família. Existe uma história que não pode ser reduzida a um número.
Existe a ideia de que esse tipo de situação aumenta no fim do ano. As pesquisas mostram que não é algo tão simples assim. Os dados não indicam de forma clara que dezembro seja o mês com mais mortes por suicídio. O que é inegável é que o sofrimento emocional existe o ano inteiro e, quando não é percebido ou acolhido, pode evoluir para situações extremas.
Ocorrências envolvendo suicídio, tentativas e crises emocionais fazem parte da rotina da segurança pública. Já atendi casos em residências silenciosas, em locais isolados, em famílias completamente desprevenidas. Já vi o desespero de quem ficou, a culpa e as perguntas sem resposta. São situações que não terminam quando a viatura vai embora. Elas continuam na vida de todos os envolvidos.
Escrevo este texto em homenagem a uma pessoa muito especial. Uma amiga que se foi há dois meses. Não para expor sua história, mas para que sua ausência sirva de alerta. Para que outras pessoas não precisem chegar ao mesmo ponto por falta de apoio, escuta ou presença.
Os sinais existem, embora nem sempre sejam claros. Às vezes, a pessoa se afasta, muda o comportamento, fica mais quieta, perde o interesse pelas coisas ou passa a exagerar em comportamentos que antes não fazia. Muitas vezes, todo excesso esconde uma falta. Falta de acolhimento. De escuta. De sentido.
Depressão e ansiedade não são frescura. Não são falta de força ou de caráter. São dores reais, silenciosas. E pedir ajuda não é fraqueza. É coragem.
Se você que lê este texto está passando por um momento difícil, saiba disso: você não está sozinho. Falar sobre o que sente pode ser o primeiro passo para atravessar esse momento com mais apoio.
Se precisar de ajuda imediata, procure apoio profissional. No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188.
Porque, no fim das contas, a missão é a mesma: você prometeu que voltaria para casa. Tua família te aguarda.
Tiago Pontes
Policial Militar há 15 anos.
Instrutor da LATAC – Latin American Tactical.
Pós-graduado em Armas, Munições e Balística pelo CESV (Centro de Ensino Superior de Vitória).
Pós-graduando em Biomecânica e Psicofisiologia do Combate pelo Instituto Doutrina Policial.
Pós-graduado em Segurança Pública
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